sábado, 11 de julho de 2009

Andar por aí faz bem

Andar por aí, na rua, é algo que as últimas gerações quase desconhecem. Não vamos gastar caracteres com sociologia, antes sublinhar a importância deste livro na recuperação dos prazeres da vadiagem, essa busca sem objectivo que nos conduz ao essencial. Saltar poças, ler anúncios, tocar muros, fazer riscos no chão com paus, eis alguns dos gestos de inscrição das crianças no mundo que as rodeia – no caso, um espaço urbano aparentemente limitado. Mas, quando se tem um avô flâneur, despreocupado e conversador, tudo muda: «O meu avô tem sempre tempo e ter tempo é muito bom.» Isabel Minhós Martins consegue captar as obsessões infantis («Só me salvo se aparecer agora um carro preto ao fundo da rua») e construir um percurso interior que é acompanhado pelas ilustrações de Madalena Matoso, sugerindo linhas, sinais, tracejados e pontos de referência, como um mapa. Note-se o espaço de página que há sempre entre o avô e o miúdo, uma relação libertadora que no fim do livro se manifesta pela proximidade dos objectos de cada um: as botas, os casacos, os chapéus-de-chuva... A Planeta Tangerina entrou em 2009 em grande forma. Andar por aí faz bem à imaginação.

(Texto publicado na revista LER nº 82)
Carla Maia de Almeida

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